domingo, 27 de agosto de 2017

A PILOTO PRECOCE DO ALEGRETE

Em uma recente manhã de sábado, Patrícia Ramanauskas saiu para o pátio com o namorado e os pais, abriu a porta da garagem, acomodou a bagagem no veículo, sentou-se ao volante e iniciou uma viagem de férias em família.
Nada de mais, não fosse a garagem um hangar, o volante, um manche, e o veículo, uma aeronave Cessna 185. Três horas e meia depois da decolagem do sítio da família, no Alegrete, os viajantes chegavam a Curitiba (PR).
Aos 24 anos, Patrícia é uma invulgar veterana dos céus. Criou-se entre aeronaves, começou a voar mal saída da infância, tirou o brevê antes da carteira de motorista e trabalha há três anos como piloto da Azul, transportando passageiros para o Brasil inteiro e também para países vizinhos. Quando tem uma folga, pega seu avião particular para realizar acrobacias de tirar o fôlego ou fazer uma visitinha aos pais na cidade natal.
– Sou apaixonada por aviação – diz.
Apesar das conquistas femininas, Patrícia é uma raridade em um ambiente dominado por marmanjos. Faz parte de um grupo de apenas 29 mulheres pilotos de linha área no país, uma gota num oceano de 3.708 homens, conforme os dados mais recentes da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), referentes a 2015. Em uma indústria onde o lugar da mulher quase sempre é na cabine de passageiros (há 5 mil comissárias, contra 2,5 mil aeromoços), Patrícia fincou bandeira no cockpit.
Ela contou com condições favoráveis para chegar lá. O pai, Elton, 56 anos, até recentemente tinha uma empresa de aviação agrícola em Alegrete e costumava voar para aplicar herbicidas, inseticidas e fungicidas em lavouras da Fronteira Oeste. Ainda hoje, mantém em casa a pista para pousos e decolagens e três aviões impecáveis, o Cessna entre eles. Um vocacionado para a aviação que só pôde aprender a voar com 30 e tantos anos, ele incentivava a menina, ainda na infância, a permanecer no hangar noite adentro, acompanhando o trabalho dos mecânicos.
– Eles faziam revisões das 21h à meia-noite. Eu dizia: “Agora tu vais lá acompanhas, para pegares noção de como é o avião” – conta Elton.
Como Patrícia mostrava desde cedo interesse pelas aeronaves, também costumava levá-la para voar. De vez em quando, lá no alto, o pai dizia:
– Filha, agora pega os comandos.
Miudinha, afundada no assento do copiloto, ela obedecia.
Por volta dos 15 anos, depois de ficar embasbacada ao experimentar um voo na cabine de um Boeing pilotado por um amigo do pai, Patrícia já estava decidida a seguir carreira na aviação comercial. Um dos aviadores da empresa foi incumbido por Elton de atuar como instrutor.
– Com 17 anos, se quisesse, eu já podia voar sozinha – orgulha-se ela.
Para que se tenha uma medida da precocidade da jovem, basta dizer que somente aos 18 anos é possível tirar o brevê no Brasil. E que, antes disso, era preciso passar por etapas oficiais que Patrícia ainda não estava apta a trilhar. Quando passou no vestibular para Ciências Aeronáuticas da PUCRS, por exemplo, foi impedida de efetivar a matrícula por ter apenas 16 anos.
– Para entrar na faculdade, tinha de ter 25 horas de voo. E, para fazer essas horas, precisava ter 17 anos de idade, porque só com 17 se podia tirar o certificado médico aeronáutico – explica a piloto.


Patrícia é discreta ao falar da frustração que sentiu por não poder começar o curso, mas o pai entrega que a reação dela foi forte, descrevendo situações de “choro”, “bateção de boca” e “furdunço”. No fim, a solução encontrada foi a adolescente matricular-se na faculdade de Administração, cursar um semestre até completar 17 anos e, então, pedir a transferência para Ciências Aeronáuticas.
Em paralelo à faculdade, que não é obrigatória para quem deseja ser piloto, Patrícia tinha de fazer o curso de pilotagem no aeroclube.
– Eu disse para ela: “Tu vais lá e não vais dizer para ninguém que tu já tens tanto conhecimento sobre pilotagem. Vais chegar lá como uma pessoa normal”. Não foi fácil – recorda Elton.
Patrícia tinha feito um trato com o pai: se conseguisse passar no vestibular e obtivesse as carteiras de avião e planador até os 18 anos de idade, Elton compraria e cederia um avião de acrobacias para ela. No dia do 18º aniversário – nenhum dia antes, porque não era permitido, e nenhum dia depois, porque não queria esperar, a jovem fez os dois voos solo exigidos, um pela manhã, o outro à tarde. Recebeu do pai um monomotor de dois lugares Super Decathlon, um “puro sangue” para acrobacias.
– Tu me deves US$ 100 mil. No dia em que puderes, me pagas – anunciou ele.
Patrícia diz não fazer ideia sobre como vai zerar a dívida. Se alguém especula que Elton nunca vai ver o tal dinheiro, o homem solta uma gargalhada e responde:
– Mas aí o que eu vou te dizer? Tenho a impressão de que tu estás certo... Perde-se tanto dinheiro neste país, que se perder para o filho não dá nada. Está tudo bem.



“É TRANQUILO, NÃO TEM TRÂNSITO”
Com o avião particular, Patrícia passou a viver uma realidade que, para a maioria dos mortais, nunca vai além da fantasia. Depois da última aula de sexta-feira na universidade, subia na cabine, em Porto Alegre, e hora e meia depois estava na casa dos pais, a 500 quilômetros de distância, em Alegrete. Ao fim do domingo, fazia o trajeto inverso, para retomar a rotina de aulas e estudos na Capital.
O primeiro desses voos foi o mais tenso, pelo menos para os pais.  A mãe, Cristina Ferreira da Costa, 51 anos, diz que só se tranquilizou quando viu a filha pousar no sítio. Elton, por via das dúvidas, sugeriu que a filha viesse costeando a BR-290, sempre de olho na estrada, para não se perder – vai que o sistema global de satélites e GPS tivesse uma queda inédita.
– Ela era um toco! Hoje não me preocupo mais, nem sei onde é que ela anda – afirma Elton.
Para Patrícia, foi a primeira de inúmeras viagens prazerosas.
– Quem vê, acha que o meu avião é um teco-teco, mas quem conhece sabe que ele é bem desenvolvido. E é uma delícia voar sozinha. É tranquilo, não tem trânsito. Tem de ficar bem alerta, porque sai do espaço aéreo de Porto Alegre, que é bem conturbado, e passa por Santa Maria, onde existem áreas restritas. Também exige uma preparação grande, porque o avião deve estar 100%, com tudo em dia. Voar na linha aérea é mais fácil, porque tu tens tudo pronto. Há um despachante de voo que te dá a meteorologia, a rota, o plano de voo. No meu avião é tudo comigo: manutenção, meteorologia, plano de voo, controle, fonia. Exige mais.
A primeira passageira transportada foi a mãe, em um voo para a capital gaúcha. Desde então, ela e a irmã tornaram-se freguesas do serviços de Patrícia, principalmente na rota Porto Alegre-Alegrete.
– No primeiro voo, eu estava nervosa quando subi com ela no avião. A Patrícia era bem novinha. Foi logo depois que ela solou. Precisava de alguém que não entendesse de pilotagem, para saber que ninguém ia ajudá-la. A minha apreensão passou logo, porque vi que ela era bem segura – relata Cristina.
Aos 20 anos, Patrícia estava formada na universidade e habilitada a fazer voos como piloto comercial. Um ano depois, participou de uma seleção da Azul e foi contratada como primeiro oficial, aquilo que popularmente se conhece como copiloto. Sua rotina é estar em um lugar diferente a cada dia, em tudo que é canto do Brasil, voando sempre no modelo ATR-72-600, um turboélice para 70 passageiros usado em rotas regionais. A primeira viagem foi um voo de Araçatuba (SP) a Campinas (SP).
– Foi superlegal. O comandante era muito gente boa, que me deixou à vontade. No primeiro pouso, fiquei emocionada. O piloto tem a palavra final, mas os dois pilotam.
De lá para cá, a alegretense ultrapassou 1,5 mil horas de voo – nos próximos meses, quando chegar a 2 mil, poderá virar comandante no ATR ou, se fizer essa opção, copiloto de algum modelo maior. Viajou para quase todos os aeroportos servidos pela companhia aérea, incluindo os localizados no Uruguai e na Guiana Francesa.
Tem residência em Porto Alegre, mas divide também um imóvel com outros pilotos e comissários em Campinas, a base da empresa. Todo mês, recebe a escala de voos, que normalmente prevê períodos de cinco dias de deslocamento intercalados por dois de folga. É uma vida de noites em hotel e cidades diferentes a cada dia. Patrícia gosta de voar para o interior de São Paulo, onde há diversas cidades que a agradam, ou para o litoral nordestino, especialmente se houver algum tempo para ir à praia.
– É uma rotina bem cansativa, mas tu conheces cidades novas, porque fazes bastante pernoite no Interior. O mínimo regulamentar são 12 horas de pernoite, então tens de chegar e dormir, porque no outro dia tu vais sair e tens de estar bem. Mas, às vezes, tu ficas inativo até 24 horas, aí dá para conhecer a cidade, ir à praia.




AMBIENTE DE PRECONCEITO
Em geral, as reações ao fato de ser jovem, e mulher, são positivas. É usual os passageiros terem uma surpresa ao ouvir a voz aguda e pequena de Patrícia sair pelos alto-falantes, com as informações sobre o voo (“Nossa, é uma criança. É a filha do comandante”, comentam alguns), mas em geral os passageiros procuram-na para elogiá-la.
Em algumas situações, no entanto, Patrícia já foi vítima de comentários preconceituosos. Em uma ocasião, quando fazia um pouso no aeroporto de Confins, perto de Belo Horizonte (MG), ela teve de arremeter, por causa do vento. Em seguida, pelo sistema de comunicação, explicou aos passageiros o motivo da manobra e que uma nova aproximação seria feita na sequência.
– Soube pelas comissárias que uma passageira falou que eu estava mentindo, que não tinha sido capaz de pousar o avião, que não tinha dado conta. E foi uma mulher quem falou. Magoa. Era um caso em que a decisão não foi nossa, mas uma restrição do avião, que não aceita pousar com tantos nós de vento. Em outras situações, nem fui eu, mas foi o comandante quem fez o pouso, um pouso mais duro, mais técnico, e, na saída, ao me ver, um passageiro diz: “Ah, agora está explicado, era uma mulher pilotando”. Em geral, não levo na maldade, mas tem comentários que são horríveis. Fico quieta, não sou uma pessoa que responde muito.
Mas incomoda – diz Patrícia.
Por isso, a piloto vê como parte da sua missão ajudar a romper barreiras e fica especialmente satisfeita quando é procurada por garotas que vêm manifestar orgulho por ver uma mulher no cockpit e demonstram interesse em seguir o mesmo caminho. Nesses casos, Patrícia leva as interessadas para voar na cabine, empresta livros, estimula a perseguirem o sonho.
– Tudo o que posso fazer eu faço, porque acho superimportante. Tive oportunidade de crescer na aviação, mas sei que não é todo mundo que tem isso.
Outra particularidade de ser mulher na aviação, segundo Patrícia, é que a regulamentação vigente foi feita pensando nos homens. Ela observa que até o uniforme de piloto, com gravata e tudo, é masculino.
– Quando voo com comandantes mulheres, é muito bom, porque a gente pode conversar sobre as nossas dificuldades, que não são restritas ao voo e ao avião. Falamos de como uma comandante consegue ser mãe, por exemplo. Há mulheres que abrem mão da carreira na aviação para ter filho, por causa dos horários. Poderiam existir outras soluções. Na regulamentação, poderiam pensar nas mulheres também.
A condição de piloto de linha aérea já seria suficiente para fazer da trajetória de Patrícia algo invulgar, mas ela vai além e ainda se aventura no ousado mundo das acrobacias, em busca de emoções que a cabine de um avião comercial não podem lhe proporcionar. Com seu Super Decatlhon, gosta de fazer piruetas, formar figuras no ar, virar de cabeça para baixo e simular quedas mortíferas, uma prática que começou ao lado do pai, no Alegrete. Em maio deste ano, apresentou-se em um show aéreo em Copacabana, no Rio.
– Dá uma adrenalina! Às vezes tu entras numa atitude anormal e o teu reflexo é corrigir da maneira que tu estás acostumado, só que no voo invertido, de cabeça para baixo,  os comandos são ao contrário. Tu tens de estar a toda hora pensando se está voando invertido, se o comando tem de ser o contrário. E aí, numa dessas situações, eu vi o chão. Deu uma desorientação... Foi um susto, mas é uma coisa que acontece com todo o piloto que vai fazer acrobacia – conta Patrícia, para lá de animada.


fonte/foto/ZeroHora

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